Contos




O LOBISOMEM


       Brumas hesitantes envolveram o rio Lot, alçando as árvores. A lua enigmática reinava soberba no céu. Eu estava triste. Meu amor se fora. Não distante, um enorme tronco de madeira erigiu do chão. No alto dele fui amarrada por correntes. Por que aceitei o sacrifício?
      A região de Lozère, França estava infestada de loup-garou[1]. As mulheres do povoado tinham sido roubadas. Eu era feiticeira e isso fazia de mim a pessoa certa para libertá-las.
     Um pacto. Louis, o preceptor dos lobisomens pretendia uma troca. Ele queria a mim, em contrapartida devolveria as mulheres. Meu perfume de rosas o atrairia.  Pretendiam matá-lo e a todos os outros com bala-de-prata. Um arsenal foi construído para pegá-los. Atrás do tronco em que estava acorrentada, havia redes no alto das copas. Seria o fim de deles.
     Margeando o matagal, os homens mais experientes vieram. Louis trouxera as damas. Quando ele abriu caminho na vegetação, declinei da coragem. Seus brilhantes olhos azuis observaram-me famintos. Ele veio em direção à pulsação do meu coração.  
     Os homens esconderam-se na vegetação. Os lobos avançaram no matagal e foram capturados. Louis se precipitou e subiu pelo tronco para me pegar, mas uma rede o arrebatou. Ele se debateu, mas conseguiu se desvencilhar, arrebentando a garganta de muitos homens. Corri desesperada. Louis era veloz, logo me alcançou na altura das costas.
     A lua se foi, e em seu lugar sobreveio uma garoa fria. Louis caiu. Voltou à forma humana.
     Parei e olhei para trás.
     — Por favor, fique comigo. Lembre-se de nós.
     A voz familiar fez-me parar de correr. Era ele, o amor que perdera. Assim que percebi ser ele o lobisomem, compreendi seus motivos. Eu o salvaria de alguma forma. Essa era a única certeza que tinha; afinal, eu era uma bruxa...     






[1] Lobisomem para os franceses.




                                          RITUAL DE SAMHAIM


                       Solstício de Inverno  no hemisfério sul. A noite mais longa do ano.


Uma estranha obsessão invadiu o coração vazio do vampiro. O olhar da sacerdotisa naquele ritual de Samhaim[1] na noite de 20 de junho deu sentido à sua imortalidade. Enquanto o fogo crepitava à distância e o ponche era servido em abundância, o vampiro bebeu o cálice do ritual sagrado sentindo o champagne percorrer as artérias e dilacerar o coração.
Enquanto os músicos entoavam cânticos célticos em seus violinos e harpas, e as pessoas colocavam seus pedidos escritos no caldeirão, ele a seguiu pela floresta, a cada instante mais apaixonado.
Uma luminosidade escancarava a nudez da Lua. O mais doce perfume exalava da pele misturado ao cheiro do sangue dela, enquanto a diva ziguezagueava pelas árvores, convidando-o a segui-la para dentro da clareira. O movimento e os giros que fazia com seu vestido vermelho entornavam segredos de suas entranhas, provocando o vampiro ao mais íntimo contato.
Quando conseguiu tocá-la, o vampiro pressentiu os temores dela. Não podia mordê-la e saciar a fome de sangue. Ela era a sacerdotisa que lhe inspirava paixão. Ela era a mulher da magia.
Após o voluptuoso beijo na noite mais longa do ano, o inverno anunciou sua chegada. Depois que as brumas congelantes se dissiparam, ela vislumbrou a possibilidade de satisfazê-lo, permitindo que ele colhesse a rosa do seu sexo e tivesse a satisfação que tanto buscava...




[1] Samhaim era o festival em que se comemorava a passagem do ano dos celtas. Marca o fim do ano velho e o começo do ano novo. O Samhain iniciava o inverno. Segundo alguns autores, grande parte da tradição do Halloween, do Dia de Todos-os-Santos e Finados pode ser associada ao Samhaim.(Wikipédia)






                                        DISPUTA DE SANGUE


                                                                   “Oh! Que doce tristeza e que ternura
                                                                   No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
                                                                   Os que penetram nessa noite escura
                                                                   Da vida aos frios véus da sepultura”.
                                                                        (A Morte – Cruz e Souza)
                                      

        Naquela noite, Bóris saiu para pescar. A madrugada espreitava as brumas plenas de ventos cortantes. Próximo a Cachoeira de Eubiose em São Thomé das Letras um lobo uivou no alto do vale, anunciando o triunfo de Bóris, o lobisomem na luta contra os vampiros. Enquanto isso, na pousada do Ribeirão Cantagalo, sua musa, a linda Loreena, de cabelos crespos, vermelhos e longos foi abordada por um homem mascarado, que queria levá-la para longe. Como não houvesse mais qualquer perigo aparente, Bóris a deixou sob a guarda de dois homens fortes.
       Loreena caminhou até a sacada da hospedaria. Enquanto lutava contra as correntes gélidas, presenciou uma cena bárbara. Os homens que cuidavam do local foram surpreendidos pela tentativa de invasão do estranho mascarado. Houve uma discussão seguida de feroz briga. O mais velho sacou de uma arma. O invasor reagiu cravando as unhas no pescoço de um deles, arrebentando-o. E com deslocamento de seu outro braço, degolou o mais jovem. 
       Ao ver Loreena olhando chocada, o mascarado respirou fundo. Entrou pela porta principal, limpando as mãos sujas de sangue num lenço branco. 
       Loreena sentou-se na cama. É Dimitrie – disse apavorada. – Não, não pode ser. Ele está morto...
       O homem avançou até os aposentos dela e entrou rispidamente:
       – Loreena...  Bóris, o lobisomen pensou que tivesse acabado comigo, não foi? E retirou a máscara, revelando-se no vampiro que ela bem conhecia. Estonteante aparência em cabelos claros e olhos azuis.  E advertiu-a:
       – Não grite – pediu mais calmo. – Ah! Minha doce Loreena... – aproximou-se tentando tocar seu rosto.
       – Afaste-se de mim... Dimitrie. Pensei que estivesse... Morto.
       – Como pode falar assim comigo... – sua voz era de desgosto. – Esqueceu-se da promessa de nos casarmos na passagem do Ano Novo Celta? Esqueceu da felicidade que compartilhamos fazendo amor?
       – Claro que não, mas enquanto esquecia de tudo nos seus braços, meu povo era massacrado...Você matou os sacerdotes druidas no nosso local sagrado.
       – Bóris a convenceu de que eu mandei atacar seus sacerdotes? Não sabe a verdade. Ele e os lobisomens prepararam-me uma armadilha, após a noite em que nos amamos. E incendiaram o vilarejo. Ele queria que você pensasse que eu era o responsável.
      – Não é possível...  – Loreena estava atônita. – Bóris disse...
       – Bóris é um embuste! Sobrevivi aos horrores do fogo. Veja... – e mostrou as chagas nos braços e costas. – Eles amarraram-me na Gruta do Sobradinho, enquanto ateavam fogo em meu corpo. Sobrevivi graças aos outros vampiros.
      Loreena estava terrivelmente confusa. Mas Dimitrie questionou:
      – Onde ele está?
      – Ele saiu... para pescar, pois imaginou não haver mais perigo. Acredita que nos casaremos numa cerimônia local. Mas não me casarei com ele.
      – Então não o ama?
      – Não. Ele amparou-me no momento em que pensei que você tivesse me abandonado. O mais importante, neste momento, é recuperar meu lugar junto ao novo sacerdote eleito. Eles estão furiosos com os vampiros e lobisomens e atribuem toda a desgraça a vocês.
      – Venha comigo, Loreena. Não posso passar a eternidade sem você.
      Loreena estava convencida que Dimitrie era inocente. Mas não podia ir com ele. Sabia que o lobisomem só queria propagar sua maldição. Ele asseguraria a sua supremacia mística gerando um filho com uma sacerdotisa. Um filho com uma bruxa o faria híbrido e intocável na luta contra os vampiros. Assim, os bebedores de sangue seriam banidos para sempre dos rituais.
      Loreena pediu uns instantes para trocar suas vestes. Ele pensou que ela o seguiria. Mas ela já trilhava outro caminho. Desapareceu no interior da mata e como tinha habilidades, logo atingiu uma distância considerável, deixando Dimitrie enlouquecido.
     O que Loreena sequer podia imaginar era de que estava em estado de graça. Uma semente florescia em seu ventre, fruto da noite de amor com o vampiro. Quando Bóris regressou, ele o esperava. Desta vez, Dimitrie o recebeu com o tiro certo da bala de prata. Após matar o lobisomen, o vampiro desesperado se precipitou pela mata em busca da sacerdotisa, que carregava a essência dele.




CONTO
O ÂMBAR NEGRO
Por Dione Souto Rosa

Inopinadamente lágrimas se derramaram pelas sinuosas falésias da costa da Irlanda
permitindo que delicados grãos se depositassem na exuberante rocha na extremidade oposta ao
mar, materializando-se num exótico material composto de resina fossilizada, formada da seiva
de árvores primitivas, o qual poderia se transformar num talismã. Era o âmbar negro.
Em algum lugar além do visível, Dilan, o solitário rei elfo sofre a perda de sua amada
esposa. Ele chora por dias e dias; por noites e noites. O seu sofrimento se torna interminável e
suas forças estão por esgotar-se. O seu reino se enfraquece. A sua espada é esquecida. Não luta
mais. Perdeu toda a razão de viver. O rei dos elfos apenas se deitou na folhagem úmida e fresca
e desejou morrer.
Que os deuses me tirem o sopro vital.
Sobre a vegetação das Falésias de Moher, uma jovem permanece inconsciente. O seu
nome é Kendra. Expulsa de sua tribo por ser considerada uma feiticeira, ela sofre o desprezo de
seu povo e agoniza lentamente. Resta com os lábios ensanguentados e as costas latejando pelos
açoites que rasgaram a sua carne. Enquanto o mato se mistura a dor e ao sangue, o líquido
negro procedente das rochas se dirige até as suas delicadas mãos e se transforma num talismã,
retirando-a daquele suplício. Ela se levanta ainda cambaleante no seu vestido negro de ombros
nus, rasgado nas pontas. Ela segue adiante em direção às margens e vê o oceano; e fica a
observar as distantes encostas – exuberantes cordilheiras escarpadas na Irlanda com seus 214
metros de altura. Logo adiante percebe que uma ponte se fez por rochas e águas, a qual seguirá
até uma exuberante ilha com grandiosa floresta, repleta de carvalhos e bétulas.
O sol ainda estava quente quando ela pisou na terra dos elfos, a terra misteriosa e verde.
Enquanto caminhava uma imagem entre as árvores apareceu. Era uma elfa de longos cabelos
louros, rosto marmóreo e muito bela.
─ Quem é você? ─ Kendra proferiu.
─ Sou a druidesa do reino de Athar, e meu nome é Shayla. E terá uma grande missão. ─
Kendra a olhou surpresa. ─ Milady será a unificadora dos Nove Reinos Élficos. O destino não a
expulsou de sua tribo em vão. Será uma grande rainha. Neste momento, eu lhe entrego a
espada dos Nove Reinos, a elfir. ─ Os olhos de Kendra se fundiram num misto de assombro e
surpresa. ─ Como missão inicial deverá encontrar o Grande Alce e colocar nele o talismã que
recebeu dos povos élficos. Aceita a missão?
─ Quer dizer que os elfos me deram o âmbar negro, salvaram-me da morte e querem que
eu governe um reino?
─ Sim, e com essa atitude salvará o primeiro reino, o reino de Dilan, pois ele rege o
coração da floresta. O rei está morrendo. Ao ver o alce não o toque ou olhe nos seus olhos.
Apenas coloque o talismã nele. Vá embora imediatamente.
Kendra impactada proferiu:
─ Não sei se posso realizar algo assim...
─ Se salvar o rei da morte, conquistará seu próprio reino. Hoje está sem um lar e os elfos
lhe oferecem magia e poder em troca de sua ajuda. Será aquela que guiará a todos com a
espada elfir, mas isso ainda será revelado... Eu apenas a estou introduzindo nesta jornada. ─
Kendra deu uns golpes no ar com a espada dourada e sentiu que era poderosa. Emitia raios em
diversas direções e revelava no suporte um círculo contendo imagens. O futuro poderia ser visto
ali, ou o passado.
─ Como posso ter certeza que me diz a verdade?
─ Prometo-lhe que terá um lar e o seu caminho será de grande luz e sapiência. Basta
apenas que encontre o alce e coloque o talismã nele.
Kendra não estava certa se podia confiar naquela estranha, mas a espada era uma prova
de que muito poder lhe estava sendo dado. A druidesa desapareceu e Kendra decidiu aceitar a
missão, e provar que tinha valor. Buscou o alce por dias e meses. Já estava quase perdendo a
esperança quando o viu no canto esquerdo da paisagem pastando. Ele a olhou. Assim que
Kendra fez menção em se aproximar, ele correu, mas não foi longe. Ela o alcançou e quando
colocou o talismã no seu pescoço o animal a olhou profundamente e abaixou a cabeça para que
ela o acarinhasse. Ela não conseguiu resistir e o tocou. O alce desapareceu e, no seu lugar,
surgiu um elfo de olhos azuis e longos cabelos louros.
─ Milady me salvou da morte! ─ Ele a olhava ternamente.
Kendra, ao ouvir tão suave e sedutora voz, não resistiu e o olhou; e ele não resistiu ao
desejo de beijá-la nos lábios. Kendra correspondeu como se o amasse há anos.
No mesmo instante, a druidesa de cabelos louros se interpôs entre ambos:
─ Não lhe disse para não tocar ou olhar no alce? ─ E enfiou a espada no ventre de
Kendra, fazendo-a tombar.
O rei elfo entendeu o que a druidesa fizera. Usara a sacerdotisa do âmbar para salvá-lo,
todavia era ela que o desejava. Shayla deveria ser apenas a porta-voz da espada e da missão de
Kendra, mas ela foi além. Shayla amava o rei, mas não tinha permissão dos reinos para ficar
com ele. Ninguém tinha. Por isso ninguém podia olhá-lo, muito menos se apaixonar por ele.
Nem Kendra, cuja missão era outra.
Dilan ficou desesperado ao ver Kendra sangrar, e não pensou duas vezes antes de buscar
ajuda para salvá-la, mas ele não sabia que o destino seria implacável:
─ Os druidas cuidarão dela! Nós ficaremos juntos, custe o que custar!

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